Comer menos proteína faz viver mais? O que a nova revisão diz
Por Dr. André Luis Lopes Costa · CRM-ES 17.797 ·
Iogurte com proteína, café com proteína, até água com proteína. Muita gente que chega ao consultório já aumentou a proteína por conta própria. E agora começou a circular a notícia contrária: comer menos proteína faria viver mais. Afinal, qual das duas vale?
O que a revisão fez
Pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, revisaram mais de 350 estudos sobre restrição de proteína e envelhecimento. O trabalho saiu no fim de julho na revista *Cell Press Blue* e ganhou repercussão no Brasil nas últimas semanas.
Os principais achados:
- Em moscas e roedores, comer menos proteína aumentou o tempo de vida, mesmo sem cortar calorias.
- Em humanos, ensaios clínicos recentes mostraram que quem reduziu a proteína perdeu peso e gordura e melhorou a glicose em jejum.
- Um hormônio chamado FGF21 sobe quando a proteína cai. Ele pode aumentar o gasto de energia e melhorar o controle do açúcar no sangue. Em camundongos, níveis mais altos desse hormônio se associaram a vida mais longa.
- Alguns aminoácidos, como metionina, isoleucina e valina, em excesso, podem ativar vias de crescimento ligadas a obesidade e inflamação.
O que a notícia não conta no título
O ponto mais importante está nas falas do próprio autor, Dudley Lamming. Ele diz que é "absolutamente claro" que a proteína traz benefício para o músculo de quem é ativo. A preocupação dele é com quem é sedentário e come mais proteína do que precisa.
A revisão também lembra que:
- Os dados de longevidade vêm de animais. Em pessoas, não há prova de que comer menos proteína faça viver mais.
- Gestantes e parte dos idosos precisam de mais proteína, não de menos.
- Outros estudos mostram o contrário para alguns grupos: mais proteína ajuda a emagrecer e a preservar músculo em idosos, principalmente junto com exercício.
O próprio Lamming conclui que a recomendação precisa ser personalizada, levando em conta a idade e o nível de atividade física de cada pessoa.
Quanto de proteína, então?
Para pessoas acima de 65 anos, dois grupos de especialistas europeus (PROT-AGE e ESPEN) recomendam:
- Pelo menos 1,0 a 1,2 g de proteína por quilo de peso por dia para idosos saudáveis.
- 1,2 g por quilo ou mais para quem pratica exercício.
- 1,2 a 1,5 g por quilo para idosos com doenças agudas ou crônicas.
A exceção são pessoas com doença renal grave que não fazem diálise. Nesse caso, a proteína pode precisar ser limitada, sempre com orientação médica.
O que isso muda na prática
No consultório, eu não trato proteína como "quanto mais, melhor" nem como vilã. Eu olho para a pessoa:
- Se você é sedentário e enche o dia de produto proteico, talvez esteja comendo mais do que precisa. Comida de verdade costuma bastar.
- Se você tem mais de 60 anos, treina ou está emagrecendo, inclusive com caneta, a proteína ajuda a não perder músculo. Cortar por conta própria pode ser um erro.
- Se você tem doença nos rins, converse com seu médico antes de mudar qualquer coisa.
E vale lembrar que a proteína sozinha não constrói músculo. Quem dá o estímulo é o treino de força. Falei sobre isso no texto sobre creatina depois dos 45.
Resumindo
A revisão mostra que menos proteína faz bem a animais em laboratório e tem efeitos metabólicos interessantes em pessoas. Mas ela não diz que todo mundo deve cortar proteína. Quem é ativo, idoso ou está emagrecendo continua precisando de quantidade adequada. A dose certa depende de você, e vale ajustar com seu médico.
Fontes
- ScienceDaily: Eating less protein could slow aging, major review finds
- Brasil em Folhas: Revisão de 350 estudos associa consumo menor de proteína a vida mais longa
- JAMDA: Evidence-based recommendations for optimal dietary protein intake in older people (PROT-AGE)
- Clinical Nutrition: Protein intake and exercise for optimal muscle function with aging (ESPEN)
Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta. Cada caso precisa de avaliação médica individual.
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