Caneta para emagrecer reduz a vontade de beber? O que o estudo mostrou
Por Dr. André Luis Lopes Costa · CRM-ES 17.797 ·
"Doutor, desde que comecei a caneta, perdi a vontade de tomar cerveja. Isso é normal?" Já ouvi essa frase de vários pacientes. Nesta semana o assunto voltou ao noticiário, e vale olhar o principal estudo sobre isso com calma.
O que o estudo fez
O trabalho foi feito em Copenhague, na Dinamarca, e publicado na revista *The Lancet*. Participaram 108 pessoas com obesidade e dependência de álcool de grau moderado a grave, que tinham procurado tratamento para parar de beber. Eram 53 mulheres e 55 homens.
Um sorteio dividiu o grupo em dois, com 54 pessoas em cada:
- Semaglutida 2,4 mg, uma injeção por semana. É a mesma substância e a mesma dose usada no tratamento da obesidade.
- Placebo, uma injeção de soro, sem remédio.
Nem os participantes nem os pesquisadores sabiam quem recebia o quê. Os dois grupos fizeram também terapia cognitivo-comportamental, o tratamento padrão para dependência de álcool. O acompanhamento durou 26 semanas, cerca de seis meses.
O que foi encontrado
O principal ponto medido foi a quantidade de dias de bebida pesada.
- No grupo da semaglutida, esses dias caíram 41,1 pontos percentuais em relação ao início.
- No grupo do placebo, caíram 26,4 pontos percentuais.
- A diferença a favor da semaglutida foi de 13,7 pontos percentuais.
Repare que o grupo do placebo também melhorou bastante. Isso mostra o peso da terapia e da decisão de buscar ajuda. A caneta somou um efeito a mais por cima disso.
Os autores relatam ainda efeito em outras medidas ligadas ao álcool e à saúde do corpo. Os efeitos colaterais foram principalmente no estômago e no intestino, em geral leves a moderados e passageiros, e mais comuns no grupo da semaglutida.
Os limites que precisam ser ditos
- É um estudo de um só centro, com 108 pessoas.
- Durou seis meses. Não sabemos o que acontece depois, nem se o efeito se mantém quando o remédio é suspenso.
- Quase 1 em cada 5 participantes não completou o tratamento: 88 pessoas, ou 81%, foram até o fim.
- Só entrou quem tinha obesidade. O resultado não vale automaticamente para quem bebe e não tem obesidade.
- Financiamento e conflitos. Entre os financiadores está a Fundação Novo Nordisk, e alguns autores declararam ligação com fabricantes desses remédios.
O que isso muda na prática
Os autores lembram que a dependência de álcool responde por 5% das mortes no mundo a cada ano. Por isso um novo caminho de tratamento interessa tanto.
Mas, no consultório, deixo três pontos claros:
- Caneta não é tratamento para alcoolismo hoje. Esse uso não está na bula. O estudo é promissor, não definitivo.
- Se você tem obesidade e bebe mais do que gostaria, conte ao médico. Isso ajuda a escolher o tratamento e a acompanhar o fígado, a pressão e o sono.
- Álcool e caneta juntos pedem cuidado. O álcool pode piorar náusea e mal-estar, e soma calorias que atrapalham o emagrecimento.
Também vale lembrar que o efeito da caneta depende de continuar o tratamento. Já expliquei aqui o que acontece com o peso quando a caneta é suspensa.
Resumindo
O estudo sugere que a semaglutida, somada à terapia, ajuda pessoas com obesidade e dependência de álcool a beber menos. É um resultado sério, mas pequeno e curto. A dependência de álcool continua pedindo tratamento próprio, com acompanhamento. Se esse é o seu caso, procure ajuda e converse com seu médico.
Fontes
Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta. Cada caso precisa de avaliação médica individual.
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